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Não me recordo se me aconteceu sonhar um sonho dentro do outro, se eles se sucederam durante a mesma noite, ou se simplesmente se alternaram.

Estou à procura de uma mulher, uma mulher que conheço, com a qual tive relações intensas, que não consigo entender por que as tenha afrouxado — eu, por minha culpa, não aparecendo mais. Parece-me inconcebível que tenha deixado passar tanto tempo. Procuro-a certamente, procuro-as, porque a mulher não é uma só, mas muitas, todas perdidas da mesma maneira, por  indolência minha — e sou tomado de incerteza, pois uma só me bastaria, porque isto eu sei, que perdi muito perdendo-a. Como acontece não encontro, não tenho mais, não me decido a abrir a agenda onde está seu número de telefone, e se acaso a abro é como se fosse míope, nela não consigo ler os nomes.

Sei onde ela está, ou na verdade não sei em que lugar, mas sei como é, tenho a clara lembrança de uma escada, de um saguão, de um patamar. Não percorro a cidade à procura do local, sou logo tomado por uma espécie de angústia, de bloqueio, continuo a remoer porque permiti, ou quis, que esse relacionamento se rompesse — faltando propositadamente ao último encontro. Estou certo de que ela espera a minha chamada. Se ao menos soubesse como se chama, sei perfeitamente quem é, salvo que não consigo reconstituir-lhe os traços.

Vez por outra, na sonolência que se segue, contesto o sonho. Procura lembrar-te, conheces e te recordas de tudo e com tudo já encerraste todas as contas, ou talvez nem sequer as tenhas aberto. Não há nada que não saibas onde esteja. Não há nada.

Permanece a desconfiança de haver esquecido qualquer  coisa, de havê-la deixado entre as dobras da solicitude, como se esquece uma cédula, um bilhete com uma anotação preciosa num bolsinho das calças ou num velho casaco, e só a certa altura se dá conta de que aquela era a coisa mais importante, a decisiva, a única.

Fonte: Umberto Eco – O Pêndulo de Foucault. Ou será que são meus desejos nas palavras dele, ou será que as palavras dele são o que sinto? Não tenho mais certeza da fonte…

P.S.: Se alguém ler e souber a que Mulher me refiro, avisem-na sobre esse texto e façam com que ela leia,  pois é fato que a quero reencontrar e seguir unido a ela, sempre….

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Envelhecimento. Parte II

velhinhos

No post anterior nós vimos uma pequena introdução sobre o que é envelhecimento. Hoje vou começar a discorrer sobre as teorias do envelhecimento. Para tanto estou me baseando em um artigo do Prof. Paulo de Tarso Veras Farinatti, prof adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estou colocando também alguns conhecimentos meus e caso recorra a mais fontes, eu citarei.

TEORIAS GENÉTICAS SOBRE O ENVELHECIMENTO.

Para o grupo das teorias genéticas o envelhecimento seria geneticamente programado desde o nascimento até a morte do ser.  Esse tempo de vida programado deve compreender as necessidades reprodutivas e o não carregamento do meio ambiente com com um excesso populacional, garantindo assim uma quantidade ideal de individuo para que haja manutenção da espécie.

Uma das teorias genéticas mais antigas sugere que o envelhecimento celular tenha início a partir do momento em que tem início os erros em processos como a transcrição e transporte de material genético, ou ainda em mutações somáticas. Tais erros trariam conseqüências negativas para a renovação celular dando origem a células “defeituosas” ou fazendo com que haja uma diminuição de sua população, o que a longo prazo, afetaria tecidos e/ou sistemas por completo. Essa teoria é chamada de Teoria do acúmulo de erros ou Teoria dos erros catastróficos. Segundo Orgel L.E (1963) (artigo original),  erros na transcrição do DNA ou na translação do RNA tenderiam a a uma auto-amplificação por mecanismos de feedback. Nesse sentido uma pequena quantidade de erros no mecanismo citado, produziria defeitos nas enzimas responsáveis pela reprodutibilidade e fidelidade desses processos. Dependendo de onde ocorram tais defeitos o erro irá se propagar a diante e ir se multiplicando até o completo colapso da célula.

Outra teoria bastante difundida é a do Limite de Hayflick desenvolvida no final da década de 70. Este limite representaria uma quantidade máxima (geneticamente programada) de quantas vezes uma célula pode se reproduzir. Portanto, uma célula jovem seria aquela que mais distante se encontra do dito limite. Essa teoria tenta fazer um paralelo entre os possíveis mecanismos de controle do envelhecimento e o controle da puberdade, ambas disparadas por um gatilho dependente do quão distante está do limite.

Vale lembrar, que ambas tratam-se todavia de TEORIAS, portanto os acadêmicos das mais diversas áreas do conhecimento se esforçam para tentar prová-las ou refutá-las colocando em seu lugar teorias novas ou adaptadas aos novos conhecimentos.  A ciência não é estática e se afirma pelo seu contrário, portanto, o que estou divulgando aqui (da maneira mais simples e resumida possível)  amanhã pode não mais ser.

Envelhecimento, parte I

Estou dando início hoje a um tema sugerido por uma leitora, Luana. Quando perguntei a ela sobre o que gostaria de ler aqui no Micose ela deu a idéia de abordar o tema do Envelhecimento, pois disse-me ela que tem tudo a ver com biologia. Realmente ela tem razão, mas tem  correlações também com Sociologia, Antropologia, Filosofia dentre outras ciências. Vou começar com o viés biológico, afinal é mais minha praia. Iremos com calma, pois não quero fazer textos muito longos, então vou dividi-los em partes. Conforme for achando mais coisas fora das ciências biológicas, eu vou complementando o texto e avisando qual enfoque será dado. Vamos lá.

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A entrada na velhice depende de vários aspectos que ultrapassam limiares da mera cronologia. Cada indivíduo reage de forma única ao avanço da idade. A velhice é construída paulatinamente, para o que concorrem variáveis biológicas e sociais, e muitos foram os autores que se preocuparam em explicar sua contribuição. Enquanto alguns estudos se dedicam ao entendimento do declínio das funções biológicas, outros debruçam-se sobre os padrões de comportamento adotados pela pessoa idosa.

As teorias biológicas do envelhecimento examinam o assunto sob a ótica do declínio e da degeneração da função e estrutura dos sistemas orgânicos e das células. O processo de envelhecimento é definido no contexto de um conjunto de variáveis mensuráveis, como a aptidão física ou eventos mórbidos. Como um instrumento de precisão, o organismo tenderia a apresentar falhas à medida que seu tempo de utilização aumenta. De fato, os sistemas orgânicos não conseguem desempenhar bem suas funções diante de variações do meio interno. Desse ponto de vista, a senescência pode ser entendida como uma perda progressiva da capacidade de homeostase. O idoso responde mais lentamente e menos eficazmente às alterações ambientais, devido a uma deterioração dos mecanismos fisiológicos, tornando-se mais vulnerável.

As teorias de fundo biológico tendem a focalizar os problemas que afetam a precisão do sistema orgânico durante o processo de envelhecimento, sejam eles de origem genética, metabólica, celular ou molecular. Pode-se dividi-las em duas categorias: as de natureza genético-desenvolvimentista e as de natureza estocástica. No primeiro caso, o envelhecimento é visto como um continuum controlado geneticamente e, talvez, programado. As teorias estocásticas trabalham com a hipótese de que o envelhecimento dependeria do acúmulo de agressões ambientais que atingem um nível incompatível com a manutenção das funções orgânicas e da vida. Todas essas teorias carecem de comprovação definitiva, nenhuma delas tendo condições de sobrepor-se às outras. Há, portanto, muitas dúvidas sobre a real influência das causas por elas apontadas no processo global de envelhecimento biológico, assim como sobre a forma pela qual poderiam interagir.

Um pouco sobre Sexto e seu Ceticismo.

sextoSexto Empírico foi um cético grego da escola pirrônica que viveu durante a última metade do século II d.C.,  sendo a mais  importante fonte de nosso conhecimento das filosofias céticas gregas antigas. As suas obras que nos chegaram são as Hipotiposes pirônicas, em três livros, que nos fornecem o próprio relato positivo de Sexto sobre  ceticismo, e uma extensa obra em onze livros denominado Contra os matemáticos. Está obra contém material semelhante ao encontrado na Hipotiposes, mas oferece ainda argumentos céticos adicionais contra os filósofos dogmáticos assim como valiosas informações sobre as principais escolas fiosóficas do periodo Helenístico.

Sexto descreve o ceticismo como uma “filosofia’ e um “modo de vida”, identificando igualmente um componente prático teórico e anti-teórico no ceticismo pirronico. A aparência de paradoxo  é verdadeira, pois o cético emprega o raciocínio teórico a fim de finalmente rejeitá-lo.  O cético é um “investigador’ acerca da verdade, mas, diferente de outros filósofos que Sexto classifica como dogmáticos (ou Acadêmicos) ele não diz ter descoberto a verdade, tão pouco, que esta não pode ser descoberta. O cético pirrônico, como filósofo, continua a investigar. Sexto vai além do papel de investigador ao mostrar uma abordagem teórica positiva e sofisticada do ceticismo como um modo de vida em que a dimensão prática do ceticismo pirrônico permanece uma de suas mais importantes. A argumentação cética sempre tem um objetivo prático. Sexto compara os argumento dos céticos com uma droga destinada a curar uma doença particularmente característica dos dogmáticos, que de forma evidente e acrítica formula teorias sobre como as coisas realmente são. A estratégia dos céticos é procurar curar esta inclinação patológica e, na verdade, quando adequadamente entendidos, seus próprios argumentos refutam-se a si mesmos juntamente com todo resto. O próprio cético inicialmente procura determinar a verdade ou falsidade de suas impressões das coisas num esforço para alcançar a ataraxia, tranqüilo e imperturbável estado  de espírito como o fim (telos) do ceticismo. Mas ao contrario disso ele se depara com aparências contraditórias e argumentos de igual peso e credibilidade. Incapaz de decidir entre eles, adota uma atitude neutra, suspendendo o juízo sobre sua verdade ou falsidade (epoché), e encontra “como que por acaso” a ataraxia acompanhada “como uma sombra acompanha seu objeto”.

O ceticismo é definido como a habilidade de produzir oposições entre aparências e juízos “de qualquer maneira que seja” como um meio de facilitar a atitude de não comprometimento, de nem afirmar nem negar qualquer coisa. Os céticos procuram contrabalançar as alegações contrárias dos dogmáticos uma contra as outras. A fim de fazer isso eles não encontram “nenhuma razão a mais” para preferir uma oposição a outra. Os argumentos em apoio de teorias rivais são igualmente fortes, por isso igualmente persuasivas.

Características do método cético são os “modos” (tropi) de ceticismo pirrônico preservadas pelo escritos de Sexto. Os modos céticos são modelos de argumentos destinados a induzir a suspensão do juízo. Os mais conhecidos dos vários diferentes grupos de modos são os Dez Modos da Epoché, que são desenvolvidos no primeiro livro de Sexto. Cada modo faz um uso particular do fato que as coisas nos “parecem” diferentes em diferentes situações. Como alguma coisas parece ser é determinado por dez fatores descrito pelos modos, tais como as condições que afetam o sujeito e o objeto e as circunstâncias em que o objeto aparece.  Estas variações são invocadas para produzir “oposições”, que são expressas em proposições geralmente apontando aparências incompatíveis a um objeto.

Esquematizando o argumento teríamos algo como:

a) X parece a F em uma situação S1;

b) x parece a F ‘ numa situação S2;

c) Não temos nenhum critério independente de S1 e S2 para julgar entre F e F ‘;

d) Não podemos afirmar tão pouco negar que x é realmente F ou F ‘. F e F ‘ representam oposição de aparências, predicados que na visão cética não podem ser conjuntamente verdadeiros de um objeto. Em um modo S1 e S2 variam nas posições ocupadas pelo preceptor. O mesmo barco parece pequeno e parado quando à distância, mas grande e em movimento quando visto de perto.

Texto adaptado de: A companion to Epistemology. Blackwell Companion to Philosophy, 1997, pp. 475 – 477. Traduzido por Jaimir Conte.

Homenagem.

Para deixar o conteúdo do blog mais eclético ainda, vou colocar um texto aqui, que nada tem com ciência e/ou filosofia que normalmente são abordados aqui. Ontem (04/10) foi dia de São Francisco, portanto vou deixar aqui a oração de São Francisco. Eu estou colocando essa oração pois acho o seu texto uma grande lição, independente de religião, que se a observarmos diariamente podemos nos melhorar. São pequenas lições, que valem para mim, e espero que para vocês também.

No Original:

Belle prière à faire pendant la Messe

Seigneur, faites de moi un instrument de votre paix.
Là où il y a de la haine, que je mette l’amour.
Là où il y a l’offense, que je mette le pardon.
Là où il y a la discorde, que je mette l’union.
Là où il y a l’erreur, que je mette la vérité.
Là où il y a le doute, que je mette la foi.
Là où il y a le désespoir, que je mette l’espérance.
Là où il y a les ténèbres, que je mette votre lumière.
Là où il y a la tristesse, que je mette la joie.
Ô Maître, que je ne cherche pas tant à être consolé qu’à consoler, à être compris qu’à comprendre, à être aimé qu’à aimer, car c’est en donnant qu’on reçoit, c’est en s’oubliant qu’on trouve, c’est en pardonnant qu’on est pardonné, c’est en mourant qu’on ressuscite à l’éternelle vie.

Em Português:

Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz!
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a .
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Ó Mestre,

fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!
Amém