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Eu e o Espelho

“Ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém”.
Kierkegaard, Soren Aabye – O Desespero Humano – Doença até a Morte” – 1849

Ao ler o texto de Kierkegaard acima citado, espantei-me em ver a grande percepção do filósofo dinamarquês diante de um fato aparentemente simples: “olhar-se no espelho”. Talvez seja o mais “corriqueiro” dos atos humanos que é realizado no cotidiano de cada pessoa, inserindo contudo
Uma perspectiva toda especial no que diz respeito à existência individual.

Segundo Kierkegaard, para que o indivíduo se veja no espelho, torna-se uma condição importante que ele tenha um “conhecimento” prévio de si, ou seja, que o ser humano veja, sinta e perceba quem ele está sendo naquele instante, que ele tenha consciência-de-si.

Quando negamos a nós mesmos a possibilidade de obter essa consciência-de-si, não nos dando conta do que sentimos, pensamos, percebemos e agimos, ampliamos de tal forma essa desconexão individual, que simplesmente usamos o “piloto automático” interno diariamente, que nos leva a um distanciamento cada vez mais profundo de uma vida saudavelmente integrada, visto que nos encontramos longe de nós mesmos.

Um sábio oriental um dia falou: “Um homem no campo de batalha conquista um exército de mil homens. Um outro conquista a si mesmo – e este é maior” (LAL, P. – The Dhammapada, 1967). Por incrível que possa parecer, a idéia quantitativa de sucesso na vida (“conquistar um exército”) tem sido a mais promovida no mundo ocidental, em detrimento do cultivo de uma idéia mais qualitativa de sucesso, cuja promoção busca a excelência da saúde individual (conquistar a si mesmo). Sem a devida reflexão do quanto a pessoa se violenta para simplesmente “possuir coisas”, o ser humano segue abrindo mão de “ter” a si mesmo, ou seja, de “ser a sua grande conquista”. É esse paradoxo da existência que leva o indivíduo a se perguntar: quem é essa pessoa que eu vejo no espelho? Esse sou eu? Eu não acredito no que estou vendo!

Erving e Miriam Polster falam que “as pessoas são notoriamente nebulosas, até mesmo distorcem a percepção que têm de si mesmas. Elas escutam gravações de suas vozes ou se vêem em filmes, e ficam incrédulas” (Polster, Erving & Polster, Miriam. “Gestalt Terapia Integrada”, 1979). Esta postura incrédula diante da percepção-de-si, é muito bem ilustrada através do filme de Bruce Joel Rubin, “My Life”(Minha Vida), protagonizado por Michael Keaton e Nicole Kidman.

Na história, Keaton representa um “bem-sucedido” relações públicas de uma empresa, que se vê surpreendido pela vida repentinamente, quando se acha acometido de um câncer terminal. Vendo-se nos momentos finais de sua vida e, percebendo o pouco tempo de que dispunha para receber o filho que brevemente nasceria, começa a fazer uma fita de vídeo, que para ele seria uma espécie de lembrança de si para o seu filho, a fim de que este mais tarde o “conhecesse”. Dando continuidade a este seu empreendimento, o protagonista fica perplexo com a opinião que alguns de seus colegas dão sobre sua pessoa. Perplexo diz: “o que é isso? Será que eu sou assim?”.

No decorrer da trama ele busca, com a ajuda de sua esposa (Nicole Kidman), um tratamento alternativo para a sua “doença”, que começa a clarificar o afastamento de si no qual ele vivia, cujas conseqüências agora ele estava sentindo, ou seja: a doença, os conflitos internos e as dificuldades de relacionamentos.

Para poder lidar com estas questões, ele começa a aprender que a grande viagem para realizar grandes coisas na vida não é para fora, mas para o interior de si mesmo, objetivando-se enquanto pessoa.

A objetividade de si “consiste pois em um processo de exploração de si, a procura do eu autêntico para além da imagem de si que o indivíduo quer projetar e aquela que de fato apresenta aos outros” (Mailhiot, Gérard Bernard. “Dinâmica e Gênese dos Grupos”, 1991). Penso que seja esta exploração de si mesmo, o conhecer-se previamente ao qual Kierkegaard se referia, que dará ao indivíduo uma percepção clara de quem está do outro lado do espelho.

Essa busca de si pode apaziguar temores mil que se fundamentam nas fantasias e fantasmas por nós criados ao longo da vida, pode integrar as partes distanciadas do nosso ser, permitindo-nos ter um bom contato com a nossa própria pessoa e com o viver do outro. Isto é ilustrado por E. E. Cummings no seu poema, a saber:

“Um total estranho, num dia negro
Bateu, tirando de dentro de mim o inferno
E ele achou difícil o perdão porque
(assim se revelou) ele era eu mesmo –
Mas agora aquele demônio e eu
Somos amigos imortais”.

Fica então a pergunta: “Quem é a pessoa que você vê ao olhar-se no espelho?”.

Marco Antonio Sales
Psicoterapeuta Existencial formado pela SAEP  
Pós-graduando em Filosofia Contemporânea - UERJ

Aproveitando recomendo o conto O ESPELHO do livro Primeiras Estórias de Guimarães Rosa.


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Bixiga. São Paulo por quem entende.

O texto que segue foi escrito por um grande amigo e que a partir de agora será um colaborador. O Sr. Arthur Vieira de Moraes é uma daquelas pessoas com as quais é fácil passar a noite em claro conversando sobre tudo, mas o que mais o encanta e que fala com propriedade, e acima de tudo, com brilho nos olhos e emoção na voz é MÚSICA POPULAR, principalmente o Samba Paulista (SIM! Nós Paulistas também temos Samba) e sobre a cidade de São Paulo; com tais atributos não posso referenciar-me a ele com outro adjetivo que não BOÊMIO.

Para sua primeira colaboração aqui no Micose Mental, ele enviou um texto que junta em si suas paixões e as resume a um bairro que encerra em si a essência da Boemia Paulistana, o BIXIGA.

Bixiga

Que agradável incumbência escrever sobre o Bixiga (com “i” mesmo, me permitam), e quanta responsabilidade ao fazê-lo!

Haverão muitos estudiosos e historiadores capazes de contestar alguns dados, mas não quem possa contestar a propriedade da minha paixão pelo Bixiga, e é essa a minha autoridade ao escrever sobre esse bairro, a de um boêmio morador e frequentador do Bixiga.

Já disse Paulo Bonfim que São Paulo é uma questão de amor, mulher difícil que só se entrega a quem chega a ela com alma de poeta.

Sendo assim é certo que São Paulo se entrega faceira ao Bixiga, pois essa é a fração mais poética de toda a metrópole!

Mas que fração é essa? Onde começa e onde termina o Bixiga? Não sei como está nos mapas, mas para mim começa ali,  nos teatros museus e feiras culturais, depois passa pelas cantinas e vai terminar lá na boemia (perto do amanhecer)! Esses são os marcos relevantes do Bixiga, mais que ruas, avenidas e viadutos (muitos com nome de importantes figuras do bairro) o que realmente demarca e identifica essas terras são as mais variadas atrações que o Bixiga oferece, generosamente, a todos que quiserem vivenciar bons momentos!

Neste enorme palco estão os mais importantes teatros de São Paulo, do TBC ao Sérgio Cardoso, as melhores cantinas, a melhor e maior escola de samba, que é o Vai – Vai de tanta tradição e glória, o museu de memórias do Bixiga, o museu do samba, a feira de antiguidades da praça Don Orione, os bares da 13 de maio, a festa de Nossa Senhora Achiropita, o bolo de aniversário de São Paulo, e tantos outros detalhes que eu adoraria citar.

Para encerrar, quero dizer que o Bixiga é imutável. Claro que os tempo mudam, a cidade muda, as pessoas mudam, mas o Bixiga não. As ruas, as casas, a estrutura, pode ser… mas o  estado de espírito desse bairro não mudará. Aqui tem samba, choro, “rock”, forró, tarantela, valsa, tudo enfim.

Mudam os gostos, a moda, a época, os ritmos, a gíria,  mas haverá sempre boa música “na treze”, bons espetáculos nos teatros, as delícias da cozinha italiana nas cantinas,  e haverão sempre, e cada vez mais, pessoas apaixonadas pelo Bixiga! Venham…

 

Arthur Vieira de Moraes

 

O Site do Arthur  é o Bastidores da Bolsa, voltado para o Mercado Financeiro, mas com uma linguagem fácil e acessível. Recomendo muito a leitura.


Concurso de fotos Nikon Small World

O concurso Nikon Small World, que teve sua primeira edição em 2001, premia a “a beleza e a complexidade da vida vista pela luz do microscópio”.

A vencedora do júri popular foi a foto de Tomas Cabello que mostra um inseto fêmea ‘Apterous aphis fabae’ com os filhotes dentro da barriga.

Em sua 36ª edição, a competição recebeu mais de 2.200 fotografias de vários países, inclusive do Brasil. Foram selecionados vinte vencedores que receberão equipamentos fotográficos como prêmio.

As fotografias foram avaliadas de acordo com originalidade, conteúdo de informação, proficiência técnica e impacto visual.

As três primeiras colocadas foram:

Primeiro Lugar: Coração do mosquito transmissor da malária.

Segundo Lugar: Peixe-zebra de cinco dias de idade

Terceiro Lugar: Órgãos olfativos de Peixe-zebra

Para ver as demais vencedoras de 2010 e também dos anos anteriores é só acessar aqui: Nikon Small Word

São Paulo em 1943

O filme aí em baixo foi patrocinado pelo Escritório de Coordenação de Assuntos Internacionais para promover relações amistosas com os países Sul Americanos um pouco antes da II Guerra Mundial.  É muito legal ver quanto a cidade mudou, passou de uma cidade com ares tipicamente europeu para algo totalmente cosmopolita e tecnológico. É interessante também notar as imagens das in

“Manual de instrução da vida”

Bela Animação.

Sem mais para o momento, é só ver e refletir.

Quem é esse tal de Doutorado?

Sempre que conhecemos alguém novo sempre surge a inevitável pergunta: “Você trabalha em que?”, a qual eu sempre respondo: “Faço Doutorado”. Pronto, cara de interrogação em 70% das pessoas, o que leva a outra pergunta: “Mas o que é Doutorado?”, aí para facilitar o entendimento, faço uso da minha resposta padrão: “Eu trabalho estudando e estudo trabalhando”, assim evito a fadiga e fica tudo certo.

Mas esses dias andando perdido pela rede, achei esse esquema bem legal, explicando o que é um Doutorado.O esquema foi feito por  Matt Might, professor de Ciências da Computação na Universidade de Utah e explica perfeitamente nesta apresentação gráfica que começa com um simples círculo.

1- Imagine um círculo que representa todo o conhecimento humano:

2- Quando você termina o ensino básico, você sabe um pouco:

3- Terminando o ensino médio, você já sabe um pouco mais:

4- Com um curso de ensino superior, você sabe mais um pouco e ganha uma especialização (note o calombo ali):

5- Com o mestrado, você aumenta o seu conhecimento naquela especialização (olha o calombo aumentando):

6- Ler e estudar artigos, livros, teses e discutir com professores da área te faz ir cada vez mais em direção ao limite do conhecimento humano, naquela área (veja que o resto do círculo ainda está em branco)

7- Quando você chega lá, você se foca mais um pouco:

8- Você tenta ultrapassar o limite, estudando e se aplicando mais ainda:

9 – Até que os limites se expandem, ou cedem, como preferir:

10 – Este pequeno calombinho de conhecimento que ultrapassou os limites é chamado de Doutorado (Ph.D):

11- Agora, a sua visão no mundo é diferente:

12 – Mas não esqueça da dimensão das coisas (lembra que falei que tinha muio círculo em brano???):

Bom, o Doutorado é isso, agora da para explicar até para a vovó e o vovô…

Da natureza da religião e da religião da natureza

Os utopianos definem a virtude: viver segundo a natureza. Deus, criando o homem, não lhe deu outro destino.
O homem que segue o impulso da natureza, é aquele que obedece à voz da razão, em seus ódios e seus apetites. Ora, a razão inspira, em primeiro lugar, a todos os mortais o amor e a adoração da majestade divina, à qual nós devemos o ser e o bem estar. Em segundo lugar, ela nos ensina e nos instiga a viver alegremente e sem lamentações, e a proporcionar aos nossos semelhantes, que são nossos irmãos, os mesmos benefícios.
De fato, o mais enfadonho e o mais fanático zelador da virtude, o inimigo mais odiento do prazer, ao vos propor imitar seus trabalhos, suas vigílias e mortificações, ordena-vos, também, mitigar, com todas as vossas forças, a miséria e as aflições dos outros. Esse moralista severo cumula de elogios, em nome da humanidade, o homem que consola e que salva o homem; e crê, assim, que a virtude mais nobre e mais humana, em qualquer terreno, consiste em suavizar os sofrimentos do próximo, arrancá-lo ao desespero e à tristeza, restituir-lhe as alegrias da vida, ou, em outros termos, fazê-lo ter parte também na volúpia.
E por que a natureza não induziria cada um de nós a se fazer, a si mesmo, o mesmo bem que aos outros? Pois, das duas uma: ou uma existência agradável, isto é, a volúpia, é um bem ou um mal. Se é um mal, não somente não se deve ajudar seus semelhantes a fruí-la, mas ainda deve-se arrancá-la como coisa perigosa e condenável. Se é um bem, pode-se e deve-se procurá-la para si próprio como para os outros. Por que iríamos ter menos compaixão de nós do que dos outros? A natureza, que inspira em nós a caridade por nossos irmãos, não ordena que sejamos cruéis conosco mesmos.
Eis o que leva os utopianos a afirmarem que uma vida honestamente agradável quer dizer que a volúpia é o fim de todas as nossas ações; que tal é a vontade da natureza e que obedecer a esta vontade é ser virtuoso.
A natureza, dizem eles, convida todos os homens a se ajudarem mutuamente e a partilharem em comum do alegre festim da vida. Este preceito é justo e razoável, pois não há indivíduo tão altamente colocado acima do gênero humano que somente a Providência deva cuidar dele. A natureza deu a mesma forma a todos; aqueceu-os todos com o mesmo calor, envolve todos com o mesmo amor; o que ela reprova, é aumentar o próprio bem estar agravando a infelicidade de outrem.
É por isto que os utopianos pensam que é necessário observar não só as convenções privadas entre simples cidadãos, mas ainda as leis públicas, que regulam a distribuição das comodidades da vida, em outros termos, que distribuem a matéria do prazer, quando estas leis foram justamente promulgadas por um bom príncipe, ou sancionadas pelo consentimento geral de um povo, nem oprimido pela tirania, nem embaído pelo artifício.
A sabedoria reside em procurar a felicidade sem violar as leis. A religião é trabalhar pelo bem geral. Calcar aos pés a felicidade de outrem, em busca da sua, é uma ação injusta.
Ao contrário, privar-se de algum prazer, para comunicá-lo a outrem, é indício de um coração nobre e humano, e que, aliás, torna a achá-lo muito superior ao prazer sacrificado. Primeiro que tudo, esta boa ação é recompensada pela reciprocidade dos serviços; em seguida, o testemunho da consciência, a lembrança e o reconhecimento dos que foram obsequiados causam à alma delícia maior que não poderia ter dado ao corpo o objeto de que se foi privado. Finalmente, o homem que tem fé nas verdades religiosas, deve estar firmemente persuadido de que Deus recompensa a privação voluntária de um prazer efêmero e passageiro, com alegrias inefáveis e eternas.
Assim, em última análise, os utopianos reduzem todas as ações e mesmo todas as virtudes ao prazer, como finalidade.
Eles chamam volúpia todo o estado ou todo movimento da alma e do corpo,  nos quais o homem experimenta uma deleitação natural. Não é sem razão que eles acrescentam a palavra natural, porque não é semente a sensualidade, é também a razão que nos atrai para as coisas naturalmente deleitáveis; e por isto devemos compreender os bens que se podem procurar sem injustiça, os gozos que não privem de um prazer mais vivo, e que não arrastem consigo nenhum mal.
in: A Utopia (Thomas Morus)